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Alexandre Barbosa e Bruna Beber traduzem Federico García Lorca

A desilusão do artista é, muitas vezes, a felicidade do leitor. Em 1930 , quando o espanhol Federico García Lorca voltava de sua viagem pelos Estados Unidos, horrorizado com uma sociedade americana racista e desumanizada, trazia também um livro de poesia. ´Poeta en Nueva York’ só foi publicado em 1940, quatro anos após o assassinato do autor pelas forças franquistas, mas logo se tornaria um marco de sua obra, com poemas tão transgressores quanto engajados e invariavelmente belos.

Na primeira edição do LINGUA SOLTA – SLAM DE TRADUÇÃO, a Escrevedeira convidou os poetas Alexandre Barbosa e Bruna Beber para verterem para o português ‘Paisaje de la multitud que vomita (Anochecer en Coney Island)´ e pediu ao público presente que elegesse a melhor versão. Para que vocês também possam escolher, transcrevemos abaixo as traduções e o poema original.

PAISAGEM DA MULTIDÃO QUE VOMITA

Anoitecer de Coney Island

Federico García Lorca/Tradução: Alexandre Barbosa

A mulher gorda vinha na frente

arrancando as raízes e molhando o pergaminho dos tambores;

a mulher gorda

que vira do avesso os polvos agonizantes.

A mulher gorda, inimiga da lua,

corria pelas ruas e edifícios desabitados

e deixava pelos cantos caveirinhas de pomba

e levantava as fúrias dos banquetes dos séculos últimos

e chamava o demônio do pão pelas colinas do céu varrido

e filtrava uma ânsia de luz nas circulações subterrâneas.

São os cemitérios, eu sei, são os cemitérios

e a dor das cozinhas enterradas na areia,

são os mortos, os faisões e as maçãs de outrora

que nos empurram pela garganta.

Chegavam os rumores da selva do vômito

com as mulheres vazias, com meninos de cera quente,

com árvores fermentadas e garçons incansáveis

que servem pratos de sal sob as harpas da saliva.

Sem remédio, filho meu, vomita! Não há remédio.

Não é o vômito dos hussardos nos peitos da prostituta,

nem o vômito do gato que engoliu a rã por descuido.

São os mortos que arranham com mãos de terra

as portas de sílex onde apodrecem fungos e sobremesas.

A mulher gorda vinha na frente

com o povo dos barcos, das tabernas e dos jardins.

O vômito agitava delicadamente seus tambores

entre as meninas de sangue

que pediam proteção à lua.

Ai de mim! Ai de mim! Ai de mim!

Este olhar meu foi meu, mas já não é meu,

este olhar que treme nu pelo álcool

e despede barcos incríveis

entre as anêmonas dos molhes.

Me defendo com este olhar

que mana das ondas por onde a aurora não se atreve,

eu, poeta sem braços, perdido

na multidão que vomita,

sem cavalo efusivo que corte

os espessos musgos das minhas têmporas.

Mas a mulher gorda seguia na frente

e as pessoas buscavam as farmácias

onde o amargo trópico se fixa.

Só quando içaram a bandeira e chegaram os primeiros cães

a cidade inteira acorreu aos balaústres do ancoradouro.

PAISAGEM DA MULTIDÃO QUE VOMITA

Anoitecer em Coney Island

Federico García Lorca/ Tradução: Bruna Beber

A mulher gorda vinha na frente

arrancando raízes, encharcando o pergaminho dos tambores;

a mulher gorda

que revira do avesso os polvos agonizantes.

A mulher gorda, inimiga da lua,

corria pelas ruas e andares vazios

e deixava pelos cantos pequenas caveiras de pombo

e hasteava a fúria dos banquetes dos últimos séculos

e invocava o diabrete Pã pelas colinas do céu despencado

e triava a ânsia de luz nas circulações subterrâneas.

São os cemitérios, eu sei, são os cemitérios

e o luto das cozinhas enterradas sob a areia,

são os mortos, são os faisões e as maçãs de ontem

que nos amordaçam a garganta.

Chegavam rumores da selva do vômito

com mulheres desabitadas, filhos de cera quente,

com árvores fermentadas e camareiros incansáveis

que empurram pratos de sal sob as harpas da saliva.

É inevitável, filho meu, vomita! Não há remédio.

Não é o vômito dos hussardos sobre os peitos da prostituta,

nem o vômito do gato que engoliu um rã por descuido.

São os mortos que arranham com suas mãos de terra

as portas de pederneira onde apodrecem nuvens e sobremesas.

A mulher gorda vinha na frente

com os embarcados, das tabernas e dos jardins.

O vômito agitava seus tambores com delicadeza

por entre algumas filhas de sangue

que pediam proteção a lua.

Ai de mim! Ai de mim! Ai de mim!

Essa visão me pertencia, mas não é mais minha,

Essa visão que treme desnudada pelo álcool

E lança barcos notáveis

Pelas anêmonas dos quebra-mares.

Me defendo com esta visão

que emana das ondas por onde a aurora não se atreve,

eu, poeta sem braços, perdido

na multidão que vomita,

sem cavalo efusivo que tosqueie

os musgos espessos de minhas têmporas.

Mas a mulher gorda seguia na frente

e o povo procurava as farmácias

Onde o trópico amargo se encontra.

Só quando içaram a bandeira e chegaram os primeiros cães

a cidade inteira se amontoou nos gradis do cais.

PAISAJE DE LA MULTITUD QUE VOMITA

Anochecer en Coney Island

Federico García Lorca

La mujer gorda venía delante

arrancando las raíces y mojando el pergamino de los tambores;

la mujer gorda

que vuelve del revés los pulpos agonizantes.

La mujer gorda, enemiga de la luna,

corría por las calles y los pisos deshabitados

y dejaba por los rincones pequeñas calaveras de paloma

y levantaba las furias de los banquetes de los siglos últimos

y llamaba al demonio del pan por las colinas del cielo barrido

y filtraba un ansia de luz en las circulaciones subterráneas.

Son los cementerios, lo sé, son los cementerios

y el dolor de las cocinas enterradas bajo la arena,

son los muertos, los faisanes y las manzanas de otra hora

los que nos empujan en la garganta.

Llegaban los rumores de la selva del vómito

con las mujeres vacías, con niños de cera caliente,

con árboles fermentados y camareros incansables

que sirven platos de sal bajo las arpas de la saliva.

Sin remedio, hijo mío, ¡vomita! No hay remedio.

No es el vómito de los húsares sobre los pechos de la prostituta,

ni el vómito del gato que se tragó una rana por descuido.

Son los muertos que arañan con sus manos de tierra

las puertas de pedernal donde se pudren nublos y postres.

La mujer gorda venía delante

con las gentes de los barcos, de las tabernas y de los jardines.

El vómito agitaba delicadamente sus tambores

entre algunas niñas de sangre

que pedían protección a la luna.

¡Ay de mí! ¡Ay de mí! ¡Ay de mi!

Esta mirada mía fue mía, pero ya no es mía,

esta mirada que tiembla desnuda por el alcohol

y despide barcos increíbles

por las anémonas de los muelles.

Me defiendo con esta mirada

que mana de las ondas por donde el alba no se atreve,

yo, poeta sin brazos, perdido

entre la multitud que vomita,

sin caballo efusivo que corte

los espesos musgos de mis sienes.

Pero la mujer gorda seguía delante

y la gente buscaba las farmacias

donde el amargo trópico se fija.

Sólo cuando izaron la bandera y llegaron los primeros canes

la ciudad entera se agolpó en las barandillas del embarcadero.

New York, 29 de diciembre de 1929.

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