Return to site

Como se fosse uma locução de um jogo de futebol

Neste bimestre, os grupos da oficina de escrita, com Noemi Jaffe, estão trabalhando "ação". Um dos exercícios propostos em aula foi o de narrar uma ação trivial (espremer um suco de laranja, amarrar um sapato) como se fosse uma locução de um jogo de futebol.

Os resultados, da turma de terça-feira, estão abaixo:

 

Para ser lido como um narrador de jogo de futebol o faria, frente a uma jogada de quase sucesso.

 

Ela chega ao ponto com a respiração em suspenso, procura algo na bolsa, olhos fixos no ônibus laranja que se aproxima. Consegue ler 1847P e percebe que logo atrás o 1358N faz uma manobra que a impede de ler o letreiro de destino. Mesmo se conseguisse, as letras se movimentam com regularidade entre a indicação da avenida que (todos sabem) ele passa, e um Feliz Páscoa que tem data próxima. Ela dá uma corridinha discreta para não torcer novamente o tornozelo até conseguir o ângulo favorável para ler o destino mas, nesse momento, o motorista desvia pela direita, ignorando seu abanar de braço e acelera em direção à outra faixa.

 

Sandra Abrano

 

A bexiga amarela quica na borda e pousa na superfície brilhante da piscina; o olhar de Fran segue a trajetória da bola; Cecília, do outro lado do jardim, antecipa o movimento do menino, dribla um garçom, um terno cinza, três taças suadas, mas alguém se arqueia numa risada, a mãe hesita diante do vestido rosa e Fran cambaleia em linha reta em direção à bola. Segue despercebido entre os saltos, agora está perto, estica o bracinho, e o grito de Cecília não chega, mas no úuuultimo instante um braço vem do alto, em gancho, ergue o menino, os dois pezinhos a chutar o ar.

Maria Abramo Caldeira Brant

Consegue segurar o guarda-chuva e o celular na mão esquerda, sem perder as palavras já escritas na tela do whatsapp. Com o dedão, enviar. A direita fica desprotegida ao dar o sinal para o 877T e, no mesmo instante, a manga encharca. O motorista dá duas piscadas com o farol, iluminando a poça que é atingida pelo pneu e espirra em sua calça cáqui. A mão direita, agora, está na coxa, espalhando respingos de água e sujeira. A porta se abre, grudada ao meio fio e, antes mesmo de decidir se colocaria o celular no bolso ou no compartimento lateral da mochila, visualiza a resposta: não. Mete no bolso traseiro esquerdo mesmo. Uma péssima escolha: o fio do fone enrosca na alça do guarda-chuva, impedindo que alcance o botão para fechá-lo. As outras pessoas já estão dentro. O farol abre. Partem.

Mariana Caló

O banquinho é pequeno demais para um traseiro humano. Pisa com o pé esquerdo no pedal, passa a perna direita para o outro lado. A perna é rápida, mais rápida que o vento; o pé é uma pata de elefante e aperta o pedal com firmeza; o tórax equilibra-se como uma libélula parada no ar um instante antes do voo. Agora aciona todos os músculos das duas coxas em movimentos circulares, mantém os olhos fechados um pouco mais que o normal. A bicicleta fina equilibra-se de modo circense. Não tomba. As pálpebras se abrem e se fecham rápido demais, a barriga faz movimentos de trampolim. O pai e o irmão movem as mãos para cima e depois batem uma mão contra a outra. Gol, pensa. A pista tremelica. Uma gota de suor no pescoço. Vê as próprias pernas em movimento, lembra-se que está sobre duas rodas – apenas a velocidade a mantém vertical. A bicicleta inclina para o lado direito. Vai cair. Não cai. O pai grita algo. Ela aperta forte o guidão, move as pernas com ainda mais força. A mancha de um tronco de árvore contamina toda a vista. Um golpe no nariz, o ombro batendo na pista dura.

Julia Codo

Estaciona o carro, espera as portas automáticas se abrirem e está valendo!

Pega um carrinho, hesita, volta, uma cesta basta! Avança pelo corredor de frios: agarra o queijo branco, o iogurte de frutas vermelhas e passa batido pelo peito de peru. Desvia da senhora em marcha ré, dribla o pai que carrega o filho dentro do carrinho e chega às frutas que a mãe pediu: é tipo de maçã que não acaba mais, amigos!

Pega duas de cada, segue o jogo, mira o aperol, o gin, o cabernet sauvignon, mas é o azeite equatoriano que morre na cesta.

O caixa 5 está livre, uma família com a compra do mês desponta na lateral, aperta o passo, corre disfarçado, vai que é sua!

- Cpf na nota?

- Não.

- Cartão fidelidade?

- Não.

- Aqui é lugar de gente feliz?

- Não.

Tá expulso.

Heitor Flumian

...lá vai Josué, driblando os carros, passou um, passou dois, sacou o revólver – revólver é TAURUS, a sua melhor opção em armas de fogo! Bateu o revólver no vidro, o motorista assustou, Josué insistiu, abre o vidro, viado, abre o vidro!, o motorista hesitou, trânsito travado, indefinido, Josué apontou, atiroooou… Não, não atirou, fez que ia atirar, o motorista abriu, girou a manivela – o que é isso, meu filho?!, manivela é coisa do passado!, troque seu calhambeque usado por um seminovo na ARMANDO VEÍCULOS, onde você sempre faz um bom negócio! Passa a grana, filho da puta!, o motorista deu a grana, Josué fugiu, o motorista arrancou, o motor estrebuchou – o seu motor merece gasolina aditivada, gasolina aditivada é PE-TRO-BRAS!

Bruno Leuzinger

Marli

Nove na Kombi parada. Marli desconhecida na turma. Meia noite, praia da Tartaruga.
Marli desce. Instintivamente, em dois segundos, eu e o Zeco também. Os três. Só os três.
Ela atira as sandálias sem direção. Vestido agarrado dá alguns passos na areia. Eu e o Zeco a reboque.
A areia pinica os pés já descalços. Ela sequer memorizou nomes. Olhos de atriz italiana, corpo roliço.
Velocidade da lua duplicada sobre a corrente das coisas. Marli entra no mar, nada se explica, nós dois imantados atrás. Marolas pelo joelho, ouço um gritinho pela fria lambida da água nos seios. Nova onda derruba o Zeco e o acaso me tomba ao lado dela. Não resta opção, eu a abraço para me firmar. Olhos pedintes em compasso de espera. Ajeita o cabelo sobre a orelha. Eu a trago para mais perto. Não preciso de muito mais, seu ventre cola no meu na fatalidade da maré vazante.

 

Paulo Ludmer

Framboesa

Primeiro encontro, brunch é mais seguro. Felícia morde a torrada, mastiga de um lado, mastiga do outro, o Zé chega do bufê e diz que prefere chocolate, não tem. Ela vai engolir, a sementinha entra com tudo no meio dos molares. Era geleia de framboesa. Pede tempo, passa a mão na bolsa e se levanta. Entra pela direita, dribla a mãe com o bebê, dá com a porta escancarada do banheiro. É entrar e trancar.

No espelho, arreganha os dentes, os cinco anos de aparelho fixo valeram, e alcança pelo tato a caixinha verde do fio dental. Fio não, fita. Encerada e mentolada, que o outro não funciona. Enrola as pontas nos dedos e mira entre os molares do fundo, os da esquerda. Penetra com um tranco leve e sobe liso pela parede. A semente escapa, vai para o canto entre o esmalte e a gengiva. Na segunda consegue. Solta o grãozinho, pega sobre a digital do indicador e admira. Enrola como um brigadeiro mínimo, com a ajuda do polegar. Prepara, mira e dá um peteleco. O grão some no cimento queimado do piso.

Tem mais, é caso de serviço completo, por que não. Puxa outro fio, dessa vez dos compridos. Enrola cada ponta num dedo e parte para o ataque, com método, do fundo para a frente. Começa atrás do molar esquerdo, onde estaria o siso, arrancado com os outros três no mesmo dia, quando o dentista teve de enfiar o joelho no braço da cadeira para conseguir puxar direito. Trabalha cada dente de cima.

Cobiça o enxaguatório, quer os dentes lisinhos. O banheiro do café é dos que têm: azul celeste, com embalagem gigante e copinhos de plástico. Se serve de meio copo e começa a bochechar, conta até sessenta, um minuto, como recomendou o dentista. O Zé que espere na mesa do café, não gosta do jeito como ele fala, que seje. Cospe, aproveita o ardido, não segura o ah. O Zé lá fora deve ter mau hálito. Não é dos que dizem princesa, mas quase. Pega outra fita, faltam os dentes de baixo. Vem de novo, do fundo para a frente. Passa a língua devagar, espalhada. Quase lisinho, falta escovar. Agarra a Oral B para viagem e o tubinho de pasta, conta até dez a cada grupo de dentes. A língua testa a arcada: lisa e perfeita. Sorri. A boca do Zé não chega nem aos pés.

Angela Marsiaj

A casca da cebola não é só uma casca. Do ocre avermelhado ao amarelo claro, ela tira as camadas com o polegar e o indicador. Aí, pega a faca e corta ao meio a bola branca . Uma metade tomba para o lado, a outra fica. Segura uma metade, enfia a faca e desenha cortes verticais que não atingem o bulbo. Uma água espumosa se desprende e ela lacrimeja. Funga. Passa o dorso da mão livre no rosto para interromper o corrimento. Respira fundo e passa a fazer cortes horizontais profundos. Ela agora quer atingir a base da cebola, o que a mantém cebola. Por onde a faca avança, a soltura. Centenas de pequenos quadrados rolam pela tábua úmida.

Ela pega a outra metade.

Miriam Mermelstein

Acorda atrasada. Enrosca o pé no fio do carregador do celular ao levantar da cama e o aparelho cai da cabeceira enquanto ela chuta um livro largado no chão para debaixo do armário. Veste a blusa do avesso, ajeita o cabelo num nó no alto da cabeça, arranca a bolsa do pendurador para enfiar o rímel e o remédio para enxaqueca. Passa desodorante no caminho para a cozinha, onde tem que abrir espaço entre a louça suja da noite anterior para fazer o café. Apoia o coador no copo e, num movimento mal calculado para pegar o pó na prateleira acima do fogão - que ideia botar ali, - o pote de vidro que o contém se espatifa no chão, uma explosão de cacos minúsculos enquanto o pó gruda nos vãos de rejunte gasto do piso. Abandona a cena assim mesmo. As calças ela abotoa quando o elevador bate no térreo.

Betina Neves

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly