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DE ONDE SE PODE

por João Bandeira

imagem: pintura de Rodrigo Andrade (detalhe)

Pareceu ter sentido a recomendação feita por Dieter, antes da caminhada começar. Fazer a subida o mais silenciosamente possível, quer dizer, sem muita conversa, concentrados em vencer aquela estrada nem tão pedregosa nem muito íngreme morro acima e na experiência de acompanhar a noite ainda fechada de poucas estrelas ir se dissolvendo no amanhecer. Cada um fez o que pôde, e já estávamos todos lá em cima quando o sol saiu.

Deu então para perder a vista também em lados do próprio morro e trechos de cerrado e gado quieto no pasto e esparsas plantações e em muito mais coisa. Como o pequeno açude espelhado e a névoa baixa que parecia uma manta comprida cobrindo uma légua de campo. Nesse lugar onde tudo parece ser simplesmente porque sim, vi do alto do morro, surgindo no meio do sertão, a quase figuração de um poema que escrevi anos atrás: A montanha insone / agasalhada de névoa / a lagoa sonha. Entretanto, o análogo mineiro da cena à japonesa me disseram ser fumaça se espraiando devagar, vinda de fornos de uma grande empresa que fabrica carvão, alimentados por aqueles reflorestamentos de eucaliptos ali, ó.

E mais para a esquerda, calmamente deitada, Morro da Garça. Quem vem de passagem pensa que a cidadezinha que divide o nome com o morro bem poderia ser chamada da Graça. Porque, conduzidos por Noemi para conhecer a região onde se passa ‘O recado do morro’ de Guimarães Rosa, em apenas três dias fomos agraciados com hospedagem genuinamente gentil, apresentações e falas musicais, festas de tradição e passeios de suplantar, sob a sombra aquecida de Rosa. Nesse lugar meio parado no tempo e, ao mesmo tempo, em contato com o grande mundo, em boa parte através da literatura, há mulheres como dona Ermita ou dona Maria que sabem cantigas e danças há muito infiltradas no coração do dia a dia. E que, no entanto, benzem quem pedir segurando qualidades as mais diferentes – diria assim seu Tico – de plantas medicinais e, na outra mão, o celular.

Participam de alguma forma disso os meninos seus conterrâneos, que subiram o morro na mesma leva em que estávamos nós de São Paulo. Vestidos à moda de garotos negros de Nova York e com fôlego de sobra, foram os primeiros a chegar no topo. E, quando apareceu o sol, gravaram uma longa panorâmica da paisagem, usando dois celulares, um para a imagem e outro tocando uma canção de amor neosertaneja, fornecendo a trilha do futuro post.

Em outra noite, quem acompanhasse o roteiro da Folia de Reis pela cidade, teria ido dar com ela no portão da casa de Martha e Dudu. Pelo caminho escuro e comprido que vai desde a rua até a soleira, e na espera de se cumprirem os ritos de entrada, propositalmente separado dos conhecidos para ficar misturado à gente do lugar – os mais velhos e os casais de várias idades, ajuntamentos de crianças e adolescentes inquietos, músicos e dançarinos se acertando sobre como proceder na visita – anônimo ali, me distraí de mim, viagem na viagem, submergindo em alguma promessa longínqua. Mas que também parecia estar por um triz à mão, nos lampejos de conversas que compunham o rumor abafado de uma ansiedade alegre, entusiasmo que ainda não se pode soltar. Comunhão imaginada, flutuação de coisas benignas como se adivinhadas na movimentação dos corpos, sob um ou outro facho rápido de lanterna.

Coisa diversa é ser levado por Fátima para encontrar os guaianeiros numa tarde quente, debaixo de uma árvore com jeito de centenária. Aquela dúzia de veteranos da lavoura mantém, entre outras, a tradição de um canto de trabalho, entoado em ondas vindas quase imperceptivelmente desde o silêncio e em responsório a uma das vozes que, a cada vez, chama o aflorar do coro. Talvez esse canto seja uma espécie de duplo da camaradagem que fazem por revezamento, combinando periodicamente um dia em que todos se dedicam a cuidar da roça particular de um deles. Sem quase alterar seu ritmo tranquilo, também contam piadas e casos engraçados, mas com uma ironia sem pontas. A mesma com que eles falam da luz andeja, que, não se sabe vinda de onde, aparece vagando na noite e pode até atravessar coisas, como muitos já viram acontecer. O que se esperaria ser apavorante é posto sem muito assombro. Ninguém que seja dali duvida, é um fato – porém vivido e lembrado como coisa tão excepcional quanto comum.

Mas agora o sertão está realmente no mundo. E, mais ainda, o mundo nele. No meio da viagem, o estouro de Brumadinho. Contar com a existência do excepcional e contá-lo à moda dos guaianeiros é o inverso das declarações dos executivos sinistros da Vale, tentando caracterizar como infeliz acidente, um imprevisto, e, assim, comum como afinal é a ocorrência de acasos, o rompimento da barragem de rejeitos da empresa em Brumadinho. Ao contrário também do suave nome do município, pretendem transmutar a lama numa bruma espessa estendida sobre a terrível excepcionalidade no modus operandi das mineradoras no país. O que a literatura de Guimarães Rosa mobiliza e inventa, encarando simultaneamente a brutalidade atávica e o transpassar maravilhoso de obstáculos, como faz a luz andeja, será um dia barragem bastante para uma tal escala de violência desgovernada?

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