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ÉRAMOS MUITOS ESCRITORES

Neste bimestre, os alunos da oficina de escrita criativa de Noemi Jaffe investigaram a técnica de montagem na literatura, produzindo textos em que as diversas partes integrantes não estabelecem uma relação óbvia entre si. O romance 'Eles Eram Muitos Cavalos`, de Luiz Ruffato, composto por fragmentos que têm em comum apenas a cidade de São Paulo como pano de fundo, orientou um dos exercícios realizados pelos alunos. A proposta foi escrever pequenas narrativas independentes, ambientadas na capital paulista. Entretanto, os fragmentos não foram assinados, para que se tentasse descobrir, somente pela leitura, quem eram seus autores. Abaixo, alguns desses textos.

- Tá doce?

- Bem docinho. Quer provar?

- Não, só de ver a boca pinica, tenho afta. Desde novinha.

- Pena, porque hoje tá doce. Seis reais, dois por dez.

- É, tenho afta mesmo. Começou de criança.

- Você trabalha por aqui?

- Ali naquele prédio.

- Babá?

- É, mais ou menos babá. A patroa tem dois meninos, de cinco e de sete, eu fico com eles antes da escola.

- Registrada?

- Ela falou que me registra mês que vem, sem falta. Você trabalha aqui?

- De quinta eu fico nessa esquina, porque tem o movimento do culto, aquilo ali é uma igreja, sabia?

- Sabia não.

- O povo sai seco por um abacaxi, ainda mais nesse calor. Hoje vou vender quase tudo, se Deus quiser, garanto o leite das crianças. Você tem filho?

- Sou casada não, moço. Queria estudar, terminar escola, fazer curso de enfermeira.

- Faz bem.

- Deixa eu ir que o Pirituba tá chegando, se perder esse, só daqui meia-hora.

Queria se vestir bem, comer no Macdonalds, passear pela Teodoro aos domingos. Procurou e procurou um emprego de escritótio, o currículo na bolsa – ensino médio completo, inglês básico, sem experiência, com proatividade e determinação – mas só encontrou um bico como panfleteira. Entregava, nos semáforos da Rebouças, informativos de apartamento à venda na Vila Madalena e em Perdizes. Respirava a fumaça dos escapamentos, ouvia besteiras de um e de outro motorista, se embrenhava entre os carros, perigando ser atropelada por um motoboy. Na calçada, olhava as fotos dos prédios nos panfletos, bonitos, bem pintados, com quadra e escorregador. Queria ser feliz num desses prédios, ir trabalhar de Metrô ou até mesmo de Yellow – depois voltar para casa numa nice, very sexy, e passar pela street tomando um sundae.

Entrou sabe Deus como, mas conseguiu um lugar. Até Perus o trem vai pingando, não dá nem pra se apoiar; depois, fazia bem duas semanas que não se sentava, uma canseira. Fechou os olhos: o jeito era fingir que dormia. Mesmo não estando no assento preferencial, tem sempre essas pessoas que entram depois, cheias de direitos silenciosos, a idade, muletas, pés quebrados, dedos, exigindo com os olhos um lugar. Hoje não. Afinal, fazia bem três semanas que não se sentava. E outra, ela também era filha de Deus, também tinha as pernas riscadas de varizes – que, depois das filhas, sempre inchavam no final do dia. E isso não lhe garantia um lugar preferencial. Não lhe garantia lugar nenhum. Nada. Por isso fechava os olhos, mesmo que perdesse janela, a paisagem machucada, as distrações pequenas nas roupas das pessoas. Até Pirituba, mesmo sentada, ia apertada; depois a coisa costumava folgar. O problema foi que, num solavanco, acabou abrindo os olhos. E pronto, a mulher grávida tava lá. Meio grávida, ou meio gorda; fingiu que não viu. Até Pirituba ia aguentar; aguenta até Pirituba, consciência. Afinal, menina era nova e a barriga nem tão grande assim. Abriu uma fresta dos olhos para confirmar: a barriga estava estrategicamente apontada para o centro de sua testa. Diabo. Agora seriam seis semanas sem conseguir fazer a viagem semana

Eles chegaram de (inserir meio de transporte, regular ou clandestino), vindos de (inserir cidade, estado ou país de origem). Fugiam da:

  1. Guerra
  2. Seca
  3. Perseguição política
  4. Miséria
  5. Alguma(s) da(s) anterior(es)

Em busca de

  1. Paz
  2. Se estabelecer
  3. Constituir família
  4. Riqueza
  5. Fama
  6. Bens e produtos brasileiros para exportar
  7. Bens e produtos para contrabandear
  8. Compradores para seus importados
  9. Mulheres, órgãos, drogas para vender
  10. Compradores para mulheres, órgãos...
  11. Abrir uma pousada no litoral
  12. Alguma(s) da(s) anterior(es)

 

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