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QUEM ENTENDE ULYSSES?

por Noemi Jaffe

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Ilustração: Liana Finck

Dizem que as últimas palavras de James Joyce foram: "Ninguém entende?" Mas ninguém entende o quê? É claro que pronunciar isto ao morrer carrega o significado inevitável de uma pergunta existencial, subjetiva. Mas essa mesma pergunta ronda a parte considerada mais importante da sua obra, especialmente os livros Finnegans Wake e Ulysses.
Quem entende Ulysses? Talvez a pergunta não seja tão decisiva. Joyce disse que deixaria trabalho para os críticos pelos próximos séculos e sua profecia, até agora, tem se concretizado parcialmente. Traduzido em muitas línguas e há quase cem anos despertando curiosidade e paixão entre os mais diversos leitores, Ulysses é realmente repleto de artifícios linguísticos, chaves filosóficas, históricas e religiosas. Mas não deixa de ser também a história de um filho em busca de um pai e de um pai em busca de um filho, tudo dentro de um único dia, que pode ser perfeitamente compreensível como uma narrativa sequencial.
Na pergunta doída "Ninguém entende?" oculta-se o anseio do autor pelo entendimento do mundo, o que Joyce tentou fazer principalmente através da exploração das potencialidades e limites da linguagem, tão banalizada pelo uso esvaziado que diariamente fazemos dela. É nos deslocamentos semânticos e sintáticos propostos por autores como ele (por exemplo, Guimarães Rosa, Beckett, Kafka e outros) que a língua se renova e desaliena o leitor de suas práticas habituais.

Cada capítulo de Ulysses está ligado a um dos episódios da Odisseia de Homero, assim como a um ambiente e a uma hora do dia, a uma cor, a uma parte do corpo humano. Este mapa de correspondências, criado por estudiosos da obra do escritor, foi incorporado ao final do livro, inclusive nas edições em português. Stephen Daedalus, um dos personagens, tem esse nome em homenagem a Dédalo, o mitológico arquiteto construtor de labirintos. Stephen também representa Telêmaco, filho do Ulisses grego, além do próprio James Joyce. E Leopold Bloom, o protagonista da história, contém no seu sobrenome o florescimento (to bloom - florescer) e representa o próprio Ulisses, o pai como figura universal.

Palavras evocativas, feitas da junção de duas outras ou mais; transgressões sintáticas; a mistura da fala coloquial com diversos outras formas de linguagem; um longo e intenso monólogo que atravessa páginas sem pontuação; a variação de estilo a cada novo capítulo; referências e correspondências secretas são todos recursos que pedem um leitor concentrado. Um leitor que por vezes pode tropeçar, mas levanta, disposto a pensar e interpretar. Não fosse por outras recompensas que o texto oferece, apenas esse gesto, de dúvida e reflexão, já é suficiente para que o leitor de Ulysses termine enriquecido a jornada do livro. Estranhando mais o mundo a sua volta e espantado com a capacidade que a literatura tem de nos fazer viver outras vidas e de nos alertar para o tanto que, na nossa própria vida, é impossível entender.

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